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Abstêmios do álcool como bebida (02)


Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo; porque não se agrada de tolos. Cumpre o voto que fazes. Melhor é que não votes do que votes e não cumpras.” Ec. 5.4-5

A questão da abstinência do álcool como bebida é uma prática metodista que faz parte de nossa tradição wesleyana. É sabido que a Reforma social da Inglaterra, recebeu forte influência dos metodistas por conta de suas práticas e regras de fé, em particular dos irmãos Charles e John Wesley.


John Wesley era convicto de que o verdadeiro cristianismo nos levaria a realizar boas obras (Ef. 2.10). Tal convicção despertou leigos e clérigos anglicanos para seus deveres sociais. Duncan A. Reily nos dá uma nítida ideia dos resultados de tal influência na sociedade da Inglaterra no século XVIII em sua obra: A Influência do Metodismo na Reforma Social na Inglaterra no Século XVIII.


Como tratamos nessa matéria a respeito da abstinência do álcool como bebida, nos atentaremos inicialmente nos pensamentos de Wesley com relação e esse tema em especifico. Wesley entendia que a bebida destilada, bem como o vinho (tanto que o aboliu também de seu uso em 20 de outubro de 1735 concedendo exceção apenas de seu uso restritamente nos ofícios de Ceia do Senhor), eram fortes responsáveis dos problemas sociais da época. O consumo alcoólico era um combustível para o aumento da ganância, uma vez que conforme o seu aumento, com ele também os lucro das fábricas de bebidas e tudo isso, em detrimento da vida do povo. Wesley comumente chamava isso de “blood money”.


Tal pensamento se evidenciou em várias pregações e cartas de Wesley, em especial no Sermão de número 50, intitulado de: O Uso do Dinheiro. Wesley destaca em seu sermão que as pessoas precisam ganhar tudo o puderem, entretanto, sem ferir a nossa própria consciência nem nosso corpo, pois devemos preservar o espírito de uma mente saudável. O desejo pelo dinheiro também não pode nos levar a ferirmos nosso próximo, levando em consideração o mandato de Jesus de: amar nosso próximo como a nós mesmos. Para Wesley é inadmissível 'fazer o mal para que o bem possa vir'. Neste trecho de seu sermão, Wesley trata a bebida como um veneno que destrói vidas e que pelo sangue dessas pessoas advém o lucro dos fabricantes de bebidas. A esse respeito diz Wesley:


“Tal como é, eminentemente, todos aqueles líquidos inflamáveis, comumente chamados de bebida alcoólica, ou líquidos espirituosos. É verdade que esses podem ter aplicação na Medicina; eles podem ser usados em algumas doenças corpóreas; embora existam raras oportunidades para eles, não fosse a inabilidade do médico. Portanto, tais que os preparam e vendem, apenas para esta finalidade, podem manter suas consciências limpas. Mas quem são eles? Quem os prepara e vende, apenas com este objetivo? Vocês conhecem, pelo menos, dez destes destiladores na Inglaterra? Então, excetue esses, mas todos os que os vendem, do modo comum, a qualquer um que possa comprar, são envenenadores em geral. Eles matam os súditos de sua Majestade, em grande quantidade, e não têm piedade ou indulgência. Eles os dirigem para o inferno, feito carneiros. E qual é o ganho deles, afinal? Não é o sangue desses homens? Quem, então, invejaria suas grandes propriedades e suntuosos palácios? Uma maldição está no meio deles: A maldição de Deus transpassa as pedras, a madeira, a mobília deles. A maldição de Deus está em seus jardins, suas passarelas, seus bosques; um fogo que queima até os confins do inferno! Sangue, sangue lá está: O alicerce, o chão, os caminhos, o telhado estão sujos de sangue! E tu esperas, ó homem de sangue, embora tu estejas 'vestido em escarlate e fino linho, e muito suntuosamente todos os dias'; entregar teus campos de sangue para a terceira geração? Não será desta forma: porque existe um Deus nos céus: Portanto, teu nome será, em breve, arrancado pela raiz. Como aqueles a quem tu tens destruído, o corpo e a alma, 'tua memória perecerá contigo!'.

Outro problema que acometia a sociedade era a falta de cereais muitas vezes (entenda-se alimento) por conta das destilarias usarem boa parte da produção para seus fins. A população com pouca oferta de grãos sujeitava-se a aumentos constantes gerando assim fome entre famílias inteiras. Reily enfatiza em seu livro que Wesley proibiu os membros das sociedades metodistas de tomar qualquer bebida alcoólica, a não ser com receita do médico. Entretanto aos pregadores não permitiu que eles fizessem uso em nenhum caso, abstinência mesmo. Em vez de remédio, Wesley encarou o álcool como um veneno que ameaçava a destruição da moral e do vigor do povo inglês.


Wesley era tão atento para as doutrinas e práticas entre os membros das sociedades que Richard P. Heitzenrater em seu livro, Wesley e o Povo Chamado Metodista, descreve na página 138 uma ocasião que John Wesley excluiu de uma só vez 64 pessoas de uma sociedade, destas, 17 por bebedeiras, 02 por venderem bebidas.


A questão da abstinência faz parte da tradição, usos e costumes do metodismo histórico. Muitos procuram por meio das Sagradas Escrituras justificar a questão da abstinência e utilizam alguns textos para fundamentar nosso costume, o que a meu ver é um grande equívoco. Alguns textos Bíblicos falam sobre abster-se de bebidas fortes, outros de bebidas misturadas, outros, entretanto, que a pessoa não deve abster-se do vinho, etc. Tais textos estão inseridos em contextos sociais que ao levarmos em consideração, entenderemos que as orientações não cabem para o que compreendemos como abstinência dos metodistas que é:

abster-se totalmente de tudo que contenha álcool como bebida, seja destilada ou o até mesmo os fermentados como o próprio vinho.

Do ponto de vista Bíblico nos cabe sim entendermos, que fizemos um voto muito claro e que tudo o que votarmos ao Senhor devemos cumprir. Ao sermos aceitos metodistas fizemos votos e sabíamos que os metodistas são reconhecidos por terem uma vida regrada a saber o que está descrito no Artigo 3 de nossos Cânones.


A abstinência não é mais ou menos importante que os demais elementos de regra prática. Precisamos entender que ao regramos nossas vidas seremos reconhecidos como metodistas verdadeiros ou raiz como alguns dizem atualmente. Além disso, nossa prática precisa nos levar a anunciarmos o Reino de Deus e sua Justiça entre os homens. Ao me perguntarem por quê não bebo, eu não respondo – porque minha religião não permite – mas respondo – que não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim, logo não vivo pra satisfazer meus desejos e vontades. Digo também que como mordomo do Senhor nessa terra, não posso investir o que o Ele tem me dado, em uma Indústria que tem destruído vidas e famílias inteiras. Não posso fechar os olhos para o que a bebida faz com meus irmãos ainda em nossos dias. Recentemente conversando com uma pessoa que me confessou ser alcoólatra, eu disse por que eu era abstêmio – eu não bebo por você! E isso mexeu tanto com ele que para a Glória do Senhor ele tem vencido esse mau.


A regra não mudou aos 45 minutos do segundo tempo, sempre foi assim, o que não podemos é buscar brechas ou subterfúgios para justificar nossa infidelidade como é prática de alguns/mas metodistas, e isso sim, não é prática metodista nem bíblica.


Nosso Plano de Vida e Missão da Igreja diz da Herança Metodista (eu o/a encorajo a ler para que conheça de fato o que é ser Metodista), faço menção em especial ao item "L" dos Elementos Fundamentais da Unidade Metodista:

“O Metodismo afirma o valor da prática e da experiência da fé cristã. Esta prática e experiência são confirmadas pela Palavra de Deus, pela tradição da Igreja, pela razão e pela comunidade da Igreja (At. 16.10). A prática da fé é característica básica do metodismo, pois ele é um "cristianismo prático". Este cristianismo prático tem como fonte de conhecimento de Deus, a natureza, a razão, a tradição, a experiência cristã, a vivência na comunidade da fé, sempre confrontadas pelo testemunho bíblico, que é o elemento básico da revelação divina, interpretada a partir de Cristo (II Tm. 3.14‐17; II Ts. 2.13‐15; I Co. 15.1‐4).”

Ainda a respeito da abstinência como uma espécie de vício, nosso credo Social, que é a nossa Doutrina Social, expressa claramente que diante dos problemas sociais a igreja metodista cumpre seu papel:

“12. Dentre os problemas que afetam a sociedade estão os chamados vícios como: o uso indiscriminado de entorpecentes, a fabricação, comercialização e propaganda de cigarros, bebidas alcoólicas, a exploração dos jogos de azar, que devem ser alvo de combate tenaz já pelos efeitos danosos sobre os indivíduos como também pelas implicações socioeconômicas que acarretam ao País.”

Como podemos ser combatentes tenaz de algo que nós mesmos consumimos ou fazemos uso? Aqui vemos também a coerência de nossa doutrina com a prática.


Comumente vemos controversas entre metodistas a respeito do assunto da abstinência do álcool como bebida. O que é de admirar, é que tal peculiaridade existe inclusive entre aqueles e aquelas deveriam cumprir e fazer cumprir as doutrinas. No Ato de Ordenação Presbiteral, todo/a Clérigo/a Metodista fizeram os seguintes votos, a saber, alguns deles: No ingresso na Ordem Presbiteral, pg. 111 do Ritual da Igreja Metodista, 2ª edição – novembro 2005:

Bispo/a: Você(s) está(estão) de acordo com as doutrinas e as leis da Igreja Metodista, pronto(s)/a(s) a sujeitar(em)-se às suas autoridades e a cumprir(em) fielmente o seu ministério, aonde quer que seja(m) enviado(s)/a(s)?”
“Candidato(s)/a(s): Sim, estou de acordo com as doutrinas e as leis da Igreja Metodista, e pronto/a à servir ao Senhor Jesus onde eu estiver, com a ajuda de Deus.”

Da Admissão ao Presbiterado, pg. 114 do Ritual da Igreja Metodista, 2ª edição – novembro 2005:

Bispo/a: Estão de acordo com as doutrinas e as leis da Igreja Metodista, prontos/as a sujeitarem-se, no espírito do Evangelho, aos órgãos e às pessoas que têm sobre si o encargo de dirigir a vida e a missão da Igreja?”
“Candidatos/as: Sim, com o auxílio de Deus.”

Votos esses que são reafirmados aos/as Clérigos/as nos Cânones em seus artigos:

  • 27 parágrafo 5º;

  • 28 inciso II;

  • 41 inciso II;

  • 60 alínea (L), inciso II alínea (p).


Compete a nós Clérigos/as o dever de sermos exemplos para nossa membresia. Além de ser exemplo orientá-los da melhor forma possível a respeito de todas as práticas Metodistas. Normalmente ouço de alguns colegas – ficamos perdendo tempo com esses assuntos ao invés de fazermos coisas mais importantes! – É verdade, mas se não observarmos e valorizarmos o dia das pequenas coisas, como atentaremos para as de maior valor? Como seremos fiéis no muito e não somos no pouco?


Que possamos conduzir o aprisco do Senhor com responsabilidade e respeito e que Deus nos conduza em seu infinito Amor e nos faça santos, como Santo ele é.


Eduardo Seixas Junior

Pastor na Igreja Metodista em São Roque e Superintendente do Distrito Sorocaba.


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