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A propósito da chacina em Suzano

Como responder à cultura do ódio e da violência?


“E eis que um dos que estavam com Jesus, levando a mão à espada, desembainhou-a, feriu o servo do sumo sacerdote e lhe decepou a orelha. Então, Jesus lhe disse: embainha a tua espada, pois todos os que tomam a espada, morrerão pela espada!” – Mateus 26.51,52 –Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB)


A cena narrada nos versículos citados é conhecida por todos e todas nós: trata-se do momento no qual Jesus é preso. Sua prisão deflagraria um julgamento sumário, repleto de arbitrariedades e mentiras, seria condenado e morto. Havia rumores, ameaças. Foi necessário um conluio que envolvia traição e pagamento de recompensa para que houvesse a delação. O código: um beijo no rosto. A partir daí, desencadeiam-se a violência e truculência próprias de qualquer ato de constrição física.


Um de seus seguidores portava uma arma, uma espada.

A época na qual Jesus viveu também era muito violenta. A gênese da violência exacerbada era social e política.

Social porque, desde o domínio grego, herdado pelos romanos, o sistema de cobrança de impostos e concentração de renda em grandes latifúndios era uma política de estado e um modo eficaz de expropriação de terras e bens, promovida por um invasor estrangeiro. A pobreza gerava os furtos e roubos. O mesmo Estado eficaz na cobrança de impostos não era eficaz na segurança pública.


A violência também era política, estava claro quem promovia a desigualdade e a miséria. Insurreições e atentados eram frequentes e vitimavam os agentes de repressão: os soldados. A ânsia de se livrar do opressor era enorme. Eram comuns as iniciativas violentas de expulsar o invasor que promovia a discórdia, o empobrecimento, a violência e a morte em nome da paz social e política.


A soma desses fatores poderia justificar que um seguidor bem próximo a Jesus, chegasse a acompanhá-lo no Getsêmani, portar uma arma e, em situação extrema, lançar mão dela a fim de defender Jesus. Parecia, a seus olhos, justificável, legítima defesa. Não aos olhos de Jesus, que reprova o ato, cura o ferido e repreende o agressor.


Jesus repete o preceito expresso em Gênesis 9.6 e reforçado em Apocalipse 13.10, uníssonos em condenar a violência como solução de conflitos ou mesmo de resposta a atos violentos. Jesus opta pelo princípio bíblico da paz e denuncia a cultura da violência como perpetuadora dos males. As armas de Deus e de seu povo são outras; a resistência pacífica que rompe o ciclo de ódio.


A sociedade brasileira recebeu, chocada e estarrecida a notícia de uma chacina ocorrida na escola Estadual Raul Brasil, no município de Suzano, na manhã do dia 13 de março. Dois jovens, ex-alunos da escola, assassinaram a coordenadora pedagógica Marilena Ferreira Vieira Umezo, a inspetora Eliana Regina de Oliveira Xavier, e cinco alunos. Nove alunos restaram feridos. Antes da chacina, assassinaram o tio de um dos jovens – que era o gerente de uma locadora de veículos, na qual alugaram o automóvel para ir até a escola.


Não obstante a violência que impera no Brasil, cenas de violência com essa característica, até então eram próprias de países onde o porte de arma não sofre maiores restrições. Diante do imponderável, muita comoção, desespero e perplexidade. Porém, a manifestação de um senador da República oferece uma análise descabida. Ele fala que se professores e funcionários pudessem estar armados, a tragédia seria menor.


Em momento de extrema tristeza pelas vidas inocentes que se perderam, a dor imensa de suas famílias e da comunidade escolar, na falta de palavras de consolo para uma tragédia sem precedentes, é preferível um silêncio respeitoso.

Constata-se que os jovens participavam de fóruns virtuais nos quais partilhavam suas frustrações e propunham como solução a eliminação violenta de pretensos adversários, coroada com o suicídio.


A banalização e desprezo pela vida não se restringia somente aos outros, mas também à própria existência. Essa tragédia aponta para um vácuo dos valores do Evangelho sem precedentes, onde a vida não é valorizada. Inegável que a chacina ocorrida é um alerta contra a cultura da violência e do ódio e contra a política de flexibilização da posse de armas em nossa sociedade. O sangue dos inocentes e dos suicidas se torna voz profética.


Esses crimes atualizam as palavras de Jesus no momento de sua prisão: “quem toma a espada, morrerá pela espada”. Jesus denuncia a cultura da violência, a cultura do ódio e a glamorização das armas.

A legitimação de discursos violentos e o incremento da violência não acabam com a violência, a potencializam.


O Estado policial romano, imposto na Palestina no tempo de Jesus, degringolou em uma guerra de consequências sentidas até os dias de hoje; a proibição dos israelitas de entrarem em Jerusalém, a destruição do Templo e uma carnificina sem precedentes. (Flávio Josefo, general naquela guerra reportou 500 crucificações diárias no auge da contenda.) A resposta violenta de parte a parte deteriorou as relações políticas e sociais de forma irremediável.


Nesse período de Quaresma, no qual trazemos à memória o sacrifício de Jesus, o martírio de um inocente, em resposta a uma solução violenta para os problemas sociais e políticos, devemos refletir, enquanto sociedade, se é isso que desejamos para nós e para nossos filhos; se realmente desejamos que a cultura das armas, do ódio e da violência delas resultante, seja uma linguagem utilizada para resolver os problemas que enfrentamos. A história demonstra que não. Jesus aponta outro caminho: o caminho da resistência pacífica, contra a cultura das armas do ódio e da violência.


Como Igreja de Cristo é necessário ter uma postura de testemunho do evangelho da paz, de denúncia das ações de fragilização da vida e de ameaça aos direitos básicos de toda a criação. Que o Consolador se faça presente por meio de nossa ação na vida de todas as vítimas diretas e indiretas desta chacina.

Sejam nossa vida e nossa Igreja um refrigério a esta sociedade que vive adoentada e carente do cuidado das discípulas e dos discípulos de Cristo e da manifestação da graça de nosso Deus.


Jair Alves

Pastor e Coordenador da Assessoria Regional dos Direitos Humanos 3RE


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